sexta-feira, 6 de maio de 2016

Mami


Mãe,

 Depois que me tornei uma mãe, minha admiração por você foi catapultada pra uma outra dimensão. Pois percebi que todas as dificuldades que passei você também sofreu, porém com alguns agravantes: sem fraldas descartáveis, sem babá eletrônica, sem mãe nem pai por perto pra ajudar. E com um casal de gêmeos agitados, que vieram antes de mim. Deus tinha um plano pra sua vida e, graças a Ele e ao DIU que, misteriosamente foi embora sem avisar, eu nasci.

 Me perdoe pelos quilinhos, estrias e celulites que você ganhou por minha causa. Pelos enjoos e dores de cabeça matinais frequentes que você teve na gravidez. E também por cada azia. Quero pedir desculpas por ter ficado tanto tempo sem ir ao cinema por minha causa. Por ter limpado cocôs fedidos milhões de vezes. Perdão, por favor, pelas visitas inesperadas de gente meio sem noção que você teve que receber por minha causa, mesmo depois de uma noite mal dormida, cansada e com a casa toda bagunçada. Pelas dores nas costas que causei, porque depois senti na pele o que é ter que segurar um bebê gordinho no colo. Pelo dedão que prendeu violentamente na porta do carro porque estava nervosa me levando ao hospital, num daqueles meus ataques de sinusite.

 Quero te agradecer por ter me amamentado tantas vezes, pelos banhos rápidos que teve que tomar por minha causa, pelo cobertor que foi arrumado no meio da noite fria e pelas vezes que você foi conferir se eu estava respirando ou se eu só estava dormindo muito mesmo. Por todos os band-aids colocados, pelos laços, tiaras e rabinhos feitos no meu cabelo. Por todas as canções de ninar, pelos cafunés e pelas histórias e fábulas lidas antes de dormir. 
  Agradeço pela paciência que teve em meio às brigas que tive com os meus irmãos e também pelas cintadas que me deu quando eu aprontava. Pelas intermináveis consultas pra resolvermos todas as minhas perebas de pele (verrugas, pintas, furúnculos, dermatite e afins), e também por ter conhecido todos os otorrinos de Bauru, em razão da minha sempre presente rinite.

 Por todas as vezes que nos levou ao bosque da comunidade pra brincar e pegar jambolão nas árvores. Por todas as vezes que fomos pra Santos, e pelos churros , sempre depois do show do leão marinho. Por ter me levado no show da Xuxa no estádio do Noroeste, nesse calor senegalês de nossa cidade, mesmo sabendo que seria um pé no saco. E pelas excursões ao Playcenter também.

Por ter me incentivado a fazer piano, ballet, natação e ponto cruz, mesmo eu tendo desistido de tudo bem no meio. Também agradeço por ter me ensinado que a vida, sem um docinho, é bem mais amarga, e que um batom também é algo muito importante e necessário pra uma mulher.

 Por tantas camas que você arrumou até que tomássemos vergonha na cara. Agradeço também pelas vezes que você deixava a gente dormir com você, quando o papai estava de plantão. Pelas vezes que chegou cansada do trabalho e teve que escutar a gente reclamando que não tinha nada pra comer. (Nada que a gente estava com vontade, pois a geladeira estava cheia de coisas.)
Muito obrigada por ter sido uma mãe tranquila, sem neuras, que nos transmitia segurança(com exceção das baratas). Sim, só nessa parte você falhou um pouquinho.

Quantas vezes eu e meus irmãos fomos a acampamentos e ficávamos uma semana sozinhos lá em Atibaia? E a gente aprendia a se virar. Nunca vou esquecer da saudade terrível que eu sentia quando você passava um mês no exterior, trabalhando como guia dos alunos nos intercâmbios. Achava que eu iria, literalmente, morrer de saudade! E amava quando ouvia o barulho do salto do seu sapato quando chegava em casa, ou o seu Rã-ham (pigarro familiar). Eu reconhecia de longe.

Também não esquecerei das gemadas e cremes de abacate com limão. Do marshmallow pra comermos de colher. Pelos muitos brigadeiros enrolados pras nossas festinhas de aniversário. Pelas viagens tão gostosas que fizemos juntas.

Por ter sido minha babá, advogada, psicóloga, cozinheira, motorista, gerente de operações, cabeleireira, enfermeira, tradutora e professora (de inglês e da vida). E tudo isso trabalhando em pé, sem plano de carreira, sem remuneração, sem carteira assinada, sem férias.

Obrigada por ter se virado nos trinta e ter dado conta do recado, com louvor,  mesmo trabalhando. Pelos pequenos e grandes ensinamentos. Por cada não e sim que você me disse. Por cada conselho, pelas receitas e livros compartilhados. Pelo exemplo. Por ser minha melhor e mais incrível amiga.

Você é um anjo, quer dizer, anja ( e que anja mais linda) que Deus fez  pra cuidar de mim e dos meus irmãos.

 Peço que você seja como as pilhas alcalinas. Pois elas duram muito mais que as outras. You are an awesome mom! E isso só posso escrever, também, porque me incentivou a fazer inglês e não deixou eu desistir quando eu quis.

Muita coisa boa que passei ou vou passar para meus filhos é tudo culpa sua!  Tantas lembranças boas que tenho da minha infância, da história que tivemos juntas até aqui e como enfrentamos os problemas. Como definir e quantificar o seu papel na minha vida? A porcentagem do seu caráter que foi embutido em mim?  Só sei dizer uma coisa: minha gratidão é imensurável!  

Com amor

Lola

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Agenda velha


Agenda velha

Recentemente, encontrei minha agenda de 1998. Lembro que, na minha adolescência, as meninas competiam qual agenda tinha mais colagens, anotações e tudo o que você imaginar. Minha irmã até tinha um código para escrever seus segredos, sem que ninguém entendesse aqueles micro símbolos malucos.

 Se você fosse no Mc Donald’s era obrigatório colar a embalagem de batata frita na agenda, mesmo que  tivesse impregnada de óleo. Mesmo porque não era tão fácil assim ir nessa famosa rede de lanchonete, pois não tinha na minha cidade. Hoje tem três.

 Lembro que fui pra Recife e tomei uns picolés muito diferentes da Kibon. De cajá e mangaba. Pensei: “ Vou colar na minha agenda essas embalagens. Vai fazer sucesso com a meninada!” Deu o maior trabalho, pois tive que lavar as embalagens e esperar secar pra não grudar. Depois comecei a achar umas formigas na minha agenda e não entendia o porquê. Tinha umas agendas tão nojentas, de meninas que a gente conhecia, que a Vigilância Sanitária teria bons motivos para apreender e multar as respectivas donas, por tamanha falta de higiene! E com isso você ia guardando coisas mil: ingresso de teatro, bilhetinhos de amigas, embalagens de chicletes diferentes que seu tio trazia dos Estados Unidos, guardanapos de restaurantes legais, e sua agenda ia engordando, engordando até o momento que não fechava mais. Era o momento de você colocar um elástico pra segurar a coitada gorducha. Quanto mais clips coloridos, melhor.

Mas em 1998 eu tinha 17 pra 18 anos e não colava mais tanta porcaria assim, estava mais discreta, já era uma moça madura. Tudo bem, confesso que encontrei um chumaço de cabelo colado com durex, de um amigo que raspou a cabeça na época. Naquele ano estava no terceiro colegial e me preocupava somente em passar no vestibular e se era veterinária mesmo que eu deveria  fazer. E lendo aquelas páginas, um pouco amareladas ( os clips, então, estavam tão enferrujados que é capaz de transmitir tétano!), fiquei feliz em achar um bilhetinho de uma sobrinha que na época era bem pequena. Era um desenho que ela tinha feito de mim, com vários elogios. E foi ela quem me deu o maior incentivo a fazer esse blog.

Também percebi que minha rotina era bem agradável e sem muitos problemas: jogava tênis; fazia aulas de inglês; RPG (reeducação postural global) com minha tia fisioterapeuta, pois já era corcunda, e o Pilates, naquela época, era quase desconhecido; saía com amigas que tenho até hoje, graças a Deus. Também tinha o mesmo namorado que tenho até hoje e frequentava a mesma igreja que ainda vou e tanto amo. Só que, hoje, levo dois meninos lindos comigo, meus filhotes.

Outro fato importante da minha rotina naquela época era comer lanche. Aliás, minha alimentação, pelo que li nas anotações, era basicamente isso: lanche. Cada dia era uma lanchonete diferente. Também encontrei anotações de uma viagem pra praia com os amigos, rifas que precisava vender pra formatura, notas de provas, o relato de um resgate que fiz a um cachorrinho preso num caixote no quintal da vizinha, e outras aventuras.

Simplesmente amei ter encontrado essa agenda. Amei ter lido sobre minha rotina naquela época, relembrar tantas coisas e outras que não lembraria nunca... Comecei a tirar fotos das histórias engraçadas e saí mandando no WhatsApp, para as pessoas que estavam inseridas ali, naquele contexto. Fico imaginando que os adolescentes de hoje só poderão ter esse privilégio, de ter lembranças suas de 18 anos atrás, através das lembranças do Facebook. Mas daqui a 18 anos, é capaz de não existir mais essa rede social viciante, e sim algo mais moderno ainda. Assim como o Orkut foi extinto. Amo ver fotos de quando era pequena, dos meus filhos pequenos, e sou uma das poucas que imprimo muitas fotos e faço vários álbuns, pois creio que um dia eles vão gostar de ver: as viagens; a primeira vez que entraram no mar; quando se lambuzaram de Danoninho no cadeirão de comer; quando dormiram de boca aberta no sofá; quando saíram andando com o sapato gigante do papai; quando se apresentaram na escola; quando viram um Papai Noel pela primeira vez; ou quando foram apresentados na igreja. Pois sei que as crianças crescem muito rápido. Todos falam isso. E é verdade. Já já são eles que estarão preocupados com o vestibular.

Um dia, li em algum lugar isso: se sua casa estivesse pegando fogo e não tivesse ninguém mais lá dentro, mas desse pra você ainda voltar pra pegar algo rapidamente, o que você pegaria? Eu pensei: meus álbuns de foto! Ali está a infância inteira retratada dos meus pimpolhos. É uma verdadeira joia.

Também tenho gravado tudo no computador e em pen drives, caso aconteça alguma pane no sistema.

Saio correndo, pego todos os álbuns e pen drives que conseguir. E quem sabe a agenda também!

 

terça-feira, 15 de março de 2016

Pavio curto




Pavio curto

Já assistiram aquele filme argentino, Relatos Selvagens? Concorreu ao Oscar 2015 de melhor filme estrangeiro. Achei muito bom, brilhante. Trata-se de seis episódios tragicômicos com um tema em comum: quando alguém, aparentemente normal, como eu e você, perde a boa, explode, chuta o pau da barraca, dá bafão, estressa, se desequilibra, perde o controle.


E você acaba se identificando e para pra refletir o que teria feito, em cada episódio. Até que ponto temos domínio próprio? Até onde conseguimos atuar e sermos educados e comportados em nossa convivência social, antes de explodir? 


Afinal, hoje o mundo nos entope de motivos pra perder o controle, concorda? Nos relacionamentos familiares, na escola, faculdade, no trânsito, no caixa do supermercado ou no banco. 


Você não leva desaforo pra casa? Ou consegue manter-se  firme, respirar fundo, contar até dez? Felizes são aqueles centrados, sensatos, que sabem refletir sobre tudo, não se abalam com as barbaridades desse mundo. Estes não precisam de calmantes. Conseguem engolir sapo, digerir e eliminar no final do dia. Simples como dar descarga. Conseguem reprimir aquele lado selvagem e animal que tá lá dentro, insistindo em sair.


Eu, por exemplo, odiava assistir a jornais na televisão. Logo de manhã, eu comendo um pãozinho com manteiga, toda feliz e o jornalista informando sobre o desvio de verba pública que estava destinada a melhorias no tratamento de pessoas com câncer. Depois, que fulano, com apenas doze anos de idade, foi morto voltando da escola, por uma bala perdida. Depois, quantos refugiados já morreram por naufrágio. E assim, eu mal conseguia engolir meu pão e ter apetite. Ficava pensando naquelas notícias o dia inteiro e isso roubava minha alegria. Ou você coloca uma armadura de insensibilidade, digna daquelas pessoas que trabalham dia e noite numa UTI e finge que não viu aquilo ou você fica triste o dia todo. Foi então que tomei essa decisão: parei de assistir todos os jornais e minha vida ficou bem melhor e mais leve. A mídia dá muita ênfase às tragédias e notícias ruins e a gente esquece que tem o poder de desligar a TV. 


Não estou dizendo que você deva fazer isso ou não, mas comigo deu certo e passei a viver melhor. Continuo com outros meios de informação como revistas, internet etc. Os grupos de whats app das mães da escola dos meus filhos também me deixavam louca. Saí e pronto.


Hoje, quando estava no supermercado voltei a lembrar do filme, quando, em meio a vários caixas com fila encontrei um que tinha somente uma senhorinha passando sua compra. Ufa! Tive sorte, pensei.


Quando a funcionária do caixa estava registrando o último item, a senhora me disse: “Puxa, esqueci de pegar uma coisa fundamental. Vou rapidinho lá, tá bom?”. Minhas compras já estavam na esteira. Vi que não dava pra eu trocar de caixa. Paciência, tinha que esperar. Uns minutos depois e ela volta com quatro abacatinhos (avocado) na mão. Então ela resolve questionar a caixa sobre a política de bônus de quem é Cliente Mais. A moça respondeu pacientemente. Depois ela lembrou que queria um pacote de cigarros e a caixa teve que sair, destrancar o armário e pegar o que ela queria. Deus me perdoe, mas nessa hora, eu já imaginava pegando aqueles abacatinhos e espremendo na cara da respeitável senhora. Sairia um belo guacamole. Aí ela resolveu fazer uma recarga no celular. Depois, quando foi pagar, deu problema no cartão. Não passava. Não sei se ela esqueceu a senha. E eu tentava procurar a minha paciência, que havia fugido nesse momento. Contei até cem e não até dez. Agora, como eu reagiria a essa situação se tivesse acabado de sair de um congestionamento de duas horas, com pressa, dor de barriga, sem dinheiro pra pagar minha compra e com um filho no hospital? Realmente não sei. 

E depois de trinta minutos que eu estava esperando ali, a senhora olha pra mim, com as sacolinhas na mão e diz: “Tchau bem, desculpa aí viu?”. E eu com um sorrisinho no rosto respondo com educação: “ Imagina.”. É uma escolha que temos que fazer: ser racional ou impulsivo?


Pensei, seriamente, em deixar umas cartelas de Rivotril sublingual na bolsa, pra emergências como essa. Mas poderia ser pior: eu poderia ser a atendente de caixa preferencial, tendo que enfrentar várias senhorinhas dessas por dia.


E aí você vê que não dá pra ser muito normal o tempo todo. Quem consegue, levanta a mão! A pessoa tem que extravasar de algum jeito. Por isso tem tanta gente fazendo artes maciais. Do contrário, todo dia teríamos um barraco pra colocarmos no nosso currículo pessoal.

 Assistindo a um vídeo no Youtube, do brilhante professor e historiador Leandro Karnal, ouvi a seguinte frase sensacional: “Ser louco é a única possibilidade de ser sadio nesse mundo doente.”


E percebi que a profissão do meu pai e do meu sogro, a psiquiatria, é realmente a mais promissora e necessária para esse mundo tão doidão. Vamos pra terapia pessoal, ou, qualquer dia desses, vamos sair quebrando tudo. E alguns dirão: “ Nossa, mas ele(a) era tão normal!”


terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Jogando tênis


Jogando tênis

A primeira vez que joguei tênis foi na adolescência. Lembro quando a professora me disse que a aula duraria trinta minutos apenas e eu comecei a rir na cara dela. Perguntei: “Mas só isso? Sério? Não é muito pouco?”. Ela fez uma cara estranha, tentando não rir e falou que a gente conversava depois da aula. Tá bom.

Essa mulher quis me mostrar, efetivamente, que trinta minutos era muito tempo. Não, muito não. Digamos que é quase impossível pra uma primeira vez. Ela jogava a bola lá longe, na pontinha da quadra. Eu corria igual uma condenada pra ir buscar a bola e devolvia. Eu nem tinha me recuperado e ela já tinha jogado a próxima bola na extremidade oposta de onde eu estava. De propósito, lógico. E assim foi a aula inteira. Olhei ao redor procurando balões de oxigênio, pra me ajudar a respirar, mas ela não tinha. Nem desfibriladores também, caso eu enfartasse.

O que aconteceu quando a aula acabou? Eu quase chamei o SAMU pra me levar pra casa! Precisei fechar a boca bem forte para o meu coração não saltar pra fora!  Voltei a pé, pedindo a Deus pra não encontrar ninguém no caminho que me visse naquela situação, pois meu rosto adquiriu um tom de roxo Monster High misturado com vermelho pimentão que eu nunca tinha visto igual. Chegando em casa encontrei minha mãe, que arregalou os olhos e pôs as duas mãos na boca: ela achou que eu iria desmaiar. Eu também achava!

Quase fiz uma proposta pra professora de uma aula de dez minutos apenas, mas fiquei com vergonha.

Continuei por uns seis meses e desisti. Há uns três anos, percebi que teria que fazer algum exercício. Academia estava fora de cogitação, pois odeio aquilo e já desisti umas cinco vezes, sempre depois de escolher pagar o plano trimestral, porque era mais barato. E foi aí que o tênis voltou a fazer parte da minha vida.

Aprendi, então, mais algumas coisinhas...

Que após a aula de tênis não é recomendável passar blush. Nunca. Espere uma hora pra sua coloração facial voltar ao normal.

Que, de vez em quando, acontece de você dar uma raquetada na canela, em vez de dar na bola, mesmo porque, bola e Lola são meio parecidos, acho que a raquete se confunde. Então, alguns hematomas nos membros inferiores fazem parte do jogo.

Que o meu professor vai pedir pra eu sacar com efeito, mas só conseguirei com defeito. Uma letrinha a mais ou a menos faz toda a diferença.

Que as bolinhas amarelas vão ficando verdes se a sua quadra foi pintada recentemente de azul. (Lembra? Juntando azul com o amarelo= Verde)

Que jogar tênis não é barato. As aulas são caras, as bolinhas também, e com a crise da Dilma o preço delas triplicou. E você tem que comprar uma raquete boa e leve, mas que pesa no bolso. O tênis, agora falando do calçado, também tem que ser adequado, de sola reta (torci o pé tentando jogar com um tênis comum) e, se você jogar em quadra de saibro, ele ficará laranja pra sempre. Nem Vanish resolve.

Que você vai ter que colocar palavras novas no seu vocabulário como: out, game, slice, grip, set, smash, voleio, vantagem, vantagem contra e tie break.

Que muito vento ou chuva podem arruinar completamente suas aulas, a não ser que a quadra seja coberta. Então meteorologia passou a ser algo a ser pesquisado, nesse meu caso.

Que você não deve ir jogar com o nariz escorrendo ou com diarreia. Nunca.

Que aquelas saias bonitinhas e minúsculas com preguinhas, que as jogadoras profissionais usam, não foram feitas pra mim e nem adianta tentar. Ah! E o meu culote não diminui nem um centímetro mesmo jogando há três anos. Ele é muito apegado a mim, sabe?

Que, de vez em quando, eu vou me entupir de comer à noite, mas não ficarei com peso na consciência, pois me lembrarei de que quase morri de correr na aula de tênis que fiz de manhã.

Que seu professor esquece que você tem trinta e quatro anos e te manda fazer uns exercícios impossíveis pra sua faixa etária. E que, se você abusar dos movimentos, as suas costas travam e você fica sem jogar por vários dias. Mas, pelo menos, escreve um texto sobre costas travadas. Nada é em vão, tá vendo?

Que tem gente que joga faz pouco tempo e já está bem melhor que você, mas tudo bem. Não se abale com esses detalhes. Não se misture com essa gentalha.

Uns meses atrás fui jogar pela primeira vez com uns amigos, todos homens. O jogo era de dupla e eles meio que olharam pra mim com desdém, pensando: “Coitada, vamos deixá-la jogar, né? Mas, como é mulherzinha, vai afundar o time.” Vocês precisavam ver a cara deles de surpresa ao constatar uns lances e voleios inesperados que, por sorte, consegui fazer naquele dia. No fim, meu time ganhou, com mulherzinha e tudo.

Que não adianta chegar da aula e tomar banho,  pois você continua suando por trinta minutos.

Que matar abelha com raquete é possível e divertido. Ninguém mandou querer entrar no jogo sem ser chamada.

Que você vai odiar quando ver que algumas pessoas pararam pra observar o seu jogo e vai torcer pra elas irem embora. Se for seu marido, então, pode ter certeza que vai começar a errar tudo e se atrapalhar toda. O que pode acontecer também é de um Golden Retriever parar e ficar assistindo, encantado pela bolinha, com aquela cara de quem está louco pra invadir a quadra e pegar todas elas.

Que pra jogar tênis é necessário foco e concentração, o que eu não tenho. Faça como eu e arrume um professor super calmo e paciente. Na hora do saque, quando jogo a bolinha pro alto, durante aqueles milésimos de segundo, eu reparo no avião, que deixou um rastro super legal de fumaça no céu, ou no urubu que está voando e... “o seu saque já foi pro saco” nessas horas. Outra: fique em silêncio. Isso ajuda bastante. Coisa que, pra mim, é quase impossível.

Que você vai acertar todas as bolas e saques numa aula e na outra, vai errar todas.  Aquela rede imbecil parece que não quer te ajudar e todas as bolas não passam dela, nem que mate. Qualquer dia desses de TPM ,eu vou lá, pego uma tesoura estilo Edward- mãos- de- tesoura e picoto ela inteirinha.

Mas continuarei treinando. Na vida também temos os dias bons e aqueles que só fazemos burrada, não é?

Um dia eu acertarei todas e, então, darei novas notícias. Não vou falar, não vou me distrair ou olhar para o avião, nem pisar na bola, torcer o pé, travar as costas, invadir o campo na hora do saque ou fazer burrada. Ou seja, é melhor vocês esperarem sentados!

sábado, 30 de janeiro de 2016

No céu não vai ter... de A a Z


A: A voz do Brasil, acidente, Alzheimer, atraso, amargura, abuso sexual, aquecimento global, assalto, AIDS, azia, azar, ácaro, arroto, assombração nem apagão.


B: Black Friday, baboseiras, briga, burocracia, burrice, busão lotado, Big Brother, barata, bullying, bebedeira, buraco na camada de ozônio e bafo.


C: Chato, congestionamento, calor de 45 graus, colesterol alto, coceira, cecê, cárie, câncer, chulé, cuspe, culpa, calorias, celulite, confusão, cocaína, crack, crueldade nem corrupção.


D: Desilusão, drogas, desmoronamentos e desmatamento, DST, dinheiro, dívida, desvio de verba, dúvida, dor, desigualdade social, doenças, desonestidade, dengue, demência, depressão nem depilação.


E: Empurra-empurra, enchente, envelhecimento, ego, espertalhões, Ebola, enxaqueca, espinha no rosto, espinho no peixe, exame de sangue e de próstata, estupro, muito menos ESTRUPO e nem erro de português.


F: Facebook, falta de água, fofoca, funk, furacão, fedor de cocô, farpa no dedo, febre, feiúra, fumaça de caminhão, faniquito também não.


G: Guerra, gula, gonorreia, goteira, grosseria. Greve, gangue, gandaia e gritaria.


H: Horário eleitoral, holerite, hospício, humilhação, herpes, histeria, hérnia, hipertensão e hospital.


I: Imposto, insônia, injustiças, infidelidade, inveja, impeachment, ingratidão, imprudência, indiferença, Iphone, Ipad, Ipod,” isso pode, isso não pode...”.


J: Jeitinho brasileiro, judiação.


K: Kbytes, know-how e karaokê.


L: Lamentação, lavagem de dinheiro, licitação, louça pra lavar, lixo, luxúria e ladrão.


M: Mal algum, mal estar, medo, mofo, mosca, materialismo, mulherengo, mulher fruta, muvuca, mesquinharia, maconha, mau humor, malandragem e matemática.


N: Náusea, negligência, nabo, narcóticos, necessidades, narcisismo e negativismo.


O: Opressão, olho gordo, ovo podre, ódio, operação Lava jato (só se for um Lava jato pra lavar nossos pecados), orgulho, óleo de fígado de bacalhau, ostentação nem obturação.


P: Pecado, preocupação, palavrão, pindaíba, preguiça, pichação, privada entupida, protesto, piolho, parasita, pesadelo, pamonha de Piracicaba, pós-graduação, política, podridão, poeira, praga, pornografia e peido também não.


Q: Quebra-pau, QI, queixas, queimadura e quimioterapia.


R: Regime, rancor, reclamação, reunião de condomínio, Receita Federal, remorso, rato, rave e roubo.


S: Segunda-feira, seca, solidão, safadeza, stress, salário atrasado, status, suor e sujeira.


T: Telemarketing, topada no dedinho do pé, Tsunami, trabalho escravo, trambiqueiros, tropeção, tédio, terrorismo e TPM.


U: UTI, UFC, úlcera, utopia, urticária, unha encravada.


V: Vizinho mala, vermes, vômito, vergonha, vodu, vestibular, vaia, vandalismo, vadiagem, vacilo, vício e vaidade.


W: Wireless, whatsapp e Wi-Fi, pois estaremos conectados com Deus.


X: Xilindró, xingamento e xereta.


Y: Youtube. Teremos coisas melhores pra fazer, não acham?


Z: Zumbi, Zika vírus, zum-zum-zum, zumbido de pernilongo, zona e zangado.


E que Deus, pela sua maravilhosa graça, me dê a oportunidade de constatar, in loco, se não vai ter mesmo tudo isso.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Boas invenções


Boas invenções

Hoje posso dizer que fiz algo diferente. Fui ao CineMaterna assistir um filme, Joy, acompanhar uma amiga e seu bebê. O CineMaterna possibilita, em várias cidades do Brasil, que mães, pais e acompanhantes ( um por mãe), assistam bons filmes em bons cinemas. Porém, é tudo adaptado para o conforto do bebê e da mãe. Por exemplo: o ar condicionado é mais suave, o volume do som também é reduzido, para evitar sustos e choradeiras. O ambiente é levemente iluminado. Não fica aquele breu, que geralmente estamos acostumados. Existe um trocador de fraldas dentro do cinema equipado com tudo o que a mãe precisa. E várias voluntárias ficam por ali ajudando quem precisar. Uma amiga de infância me contou que foi voluntária em Campinas e disse que a primeira sessão de lançamento em Bauru iria acontecer esse mês. No fim, acabei lá de acompanhante.
Lembro, claramente, da minha angústia de ficar em casa o dia inteiro quando meus filhos eram pequeninos demais. Como era difícil fazer algo com eles no colo, com aquela bolsa de mãe e ir num lugar que tivesse trocador, lugar pra amamentar etc. Por isso achei essa ideia muito legal.
 Vocês precisam ver a cena: várias mães chegando. Bebês no colo, dormindo, em cangurus, em carrinhos. Falando nisso, tinha praticamente um estacionamento de carrinhos embaixo da tela do cinema. Como era a primeira sessão aqui na minha cidade, tinha gente filmando, tirando foto. As mães e os bebês eram as celebridades do momento.
Quando o filme começou, você ouvia vários bebês chorando, o que já era esperado. Mas dava pra assistir tranquilamente o filme. E tivemos sorte pois o bebê da Isa, minha amiga, estava na maior paz. Mamou a maior parte do tempo, deu um cochilo, uma regurgitada básica e só. Se comportou. Várias mães amamentavam, outras ficavam de pé nas laterais da sala balançando o bebê pra dormir. Se o nenê começa a esgoelar a mãe é orientada a dar uma voltinha fora do cinema, pra não assustar os outros  bebês e virar uma onda generalizada de choradeira.

O filme que assistimos mostrava a vida de uma mulher americana, que inventou um famoso esfregão, o MOP. E tudo o que ela passou e sofreu ( e como sofreu!)  pra que sua invenção fosse patenteada e conhecida em seu país. A ideia que ela teve foi mesmo genial, mesmo que seja para um esfregão, que se tornou bem mais prático e potente.

Ainda bem que o mundo possui pessoas assim. Que não só inventam, mas batalham pra aquilo se tornar possível. E como essas coisas facilitam a vida da gente.

E ali, assistindo o filme e vendo todas aquelas mamães com seus bebês eu pensei: Parabéns pra essa Joy, uma guerreira. Que teve uma ideia genial. E parabéns pra você que inventou o CineMaterna. Não sei quem foi. Muito provavelmente foi uma mãe. Mas foi outra ideia genial!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Leve um casaco, pode esfriar!



Quando era criança, eu detestava quando meus pais dormiam a tarde inteira de sábado ou domingo. Pra quê dormir tanto assim? pensava. Por que não ir passear, fazer alguma coisa interessante? Hoje eu faço exatamente a mesma coisa.


Eu achava que minha mãe ficava muito estressada quando iríamos receber visita de parentes em casa. Ela não parava de arrumar a casa e cada coisa que bagunçávamos era motivo pra bronca. A casa tinha que ficar nos trinques e o cardápio das refeições tinha que ser maravilhoso.


Hoje eu faço exatamente igual. E quase morro pra deixar o lavabo arrumado, cheiroso e habitável, com toalha bonitinha pras visitas. E olha que é uma tarefa bem difícil quando você tem três homens em casa que ainda mijam pra fora e o filho mais novo ainda não aprendeu a dar descarga. Desinfetante de meia em meia hora é a solução. 


Outra coisa que eu ficava P da vida: Como eles podiam errar meu nome? Viviam confundindo meu nome com os meus irmãos. Hoje eu confundo o nome dos meus filhos até com o nome do meu cachorro. 


Quando minha mãe encontrava algum conhecido na rua eu me cansava de esperar e não entendia pra quê tanta conversa e bate papo. “E sua mãe, fulana? Melhorou?” e aí a conversa não acabava mais. E eu em pé lá, esperando e pedindo: “Mãe, chega, vamos embora?”. E hoje? Tudo igualzinho... eu paro pra conversar e meus filhos também reclamam.


Também não entendia por que meus pais não tinham respostas pra todas as minhas perguntas. Se me ensinaram que eu não podia mentir, por que deveria abrir um presente de aniversário decepcionante e dizer, sorrindo, que eu amei aquilo?


Por que eles trabalhavam tanto e por que tinha que tomar banho todo santo dia? Nem suei hoje, eu pensava. E por que precisava comer salada, se nem gostava tanto assim? 


Pra quê passar batom, mãe? Só vamos ali na padaria. E hoje não saio de casa sem batom, protetor, corretivo, base e blush.


Não entendia por que tinha que ouvir a viagem inteira as músicas que meu pai queria e hoje falo pros meus meninos: O carro é meu e ouço o que eu quiser. Quando vocês tiverem seu carro, vocês podem escolher a música que for.


Achava o cúmulo ter que me levantar da mesa do almoço umas 10 vezes pra pegar as coisas que meu pai queria e não estavam na mesa. Primeiro era o guardanapo, depois era o limão, depois era a pimenta. Depois ele via que o suco estava sem gelo e pedia umas pedrinhas pra mim. Aí ele via que o suco estava sem açúcar, e lá vai eu. Essa faca não está cortando filha, pega outra pra mim? Ih...tá faltando o queijo ralado. Pega aí filha, você está mais perto da geladeira. ( Pai,nem tente se defender pois eu tenho testemunhas) Hoje? Tento maneirar, pois sei como era duro, mas sobrevivi e sei que meus filhos também vão. 


Minha mãe ficava horas tirando cutícula na cama. Achava um exagero aquilo. Que tanto ela tirava naqueles dedos, meu Deus? Hoje descobri que isso é uma delícia. Nem vejo o tempo passar.

E foi então que percebi que a Elis Regina tem razão. Se você tem mais de 30 anos talvez conheça aquela música: “Como nossos pais”. Se tem menos de trinta, procura aí no Google. Digite as palavras “letra música Elis Regina como nossos pais” e você vai ver que um trecho da música é assim:

“ ...mas nós somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. O compositor da música foi o Belchior, aquele que endoidou uns tempos atrás. Mas a música bombou e viralizou nas redes sociais da época na potente voz de Elis Regina mesmo. O contexto da letra da música era totalmente diferente do meu texto aqui, mas roubei. Dá licença, tá?


Agora vejamos, se teu pai foi um alcoólatra e te espancava todo dia, não seja como ele. Mas você aprendeu o que NÃO se deve fazer. Então pegue o que foi bom e tente jogar fora as coisas ruins. Ele te ajudava a fazer a tarefa, era educado e cumprimentava todas as pessoas? Aí! Pegue isso como exemplo pra você. Dá um Ctrl C e Ctrl V no que foi legal e um Delete no que foi desastroso. As estatísticas dizem que se seu pai foi alcoólatra você tem chance de ser também. Mas Deus é muito maior que as estatísticas, convenhamos. Mande a estatística pra aquele lugar. Você pode lapidar esse DNA que recebeu e passar um bem melhor pros seus filhos. Minha funcionária aqui de casa, por exemplo, teve os pais alcoólatras. Ela não suporta cheiro de bebida. Nem passa perto. Quando eu faço risoto ela se nega a comer, pois diz que sente o gosto do vinho.  Sagu com vinho também nem experimenta. Eu entendo. Melhor assim.
 Escolha o exemplo que você quer seguir, pegue o que seus pais te ensinaram de bom e jogue fora o que foi ruim. Não esqueça que eles não eram perfeitos e que você também não é.

Agradeço a Deus a educação que meus pais me deram. E se eu conseguir ser um pouco que eles foram pra mim e meus irmãos eu já fico feliz. E isso você percebe bem melhor quando tem os seus filhos. Aí você dá muito mais valor. Hoje meus filhos reclamam muito de mim. Sei que demora pra eles perceberem que é pro bem deles que falamos tantas vezes a palavra “não”. Mas vai chegar o dia que eles vão perceber.


Só sei de uma coisa, quando tiver seus filhos você mesmo irá levar um susto quando ouvir as palavras saindo da sua boca:

“ Filho, vai sair? Leve um casaco, vai esfriar.”